Espiritismo e Religião

Antes de discorrer sobre o espiritismo e a religião, devemos nos perguntar o que é religião.

Segundo o dicionário Aurélio (1999) religião é:
1. Crença na existência de uma força ou forças sobrenaturais, considerada(s) como criadora(s) do Universo, e que como tal deve(m) ser adoradas(s) e obedecida(s).
2. A manifestação de tal crença por meio de doutrina e ritual próprios, que envolvem em geral, preceitos éticos.

Como se vê, na definição clássica de religião transparece uma dualidade que envolve uma crença num ser superior, e um aspecto de culto institucionalizado.

Para Allan Kardec o que é a Doutrina Espírita? 

No livro O Que é o Espiritismo (2003/1864, p. 12), no seu preâmbulo afirma: “O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações”.

Também afirma: 
“O Espiritismo sendo independente de toda forma de culto, não prescreve nenhum deles, e não se ocupa de dogmas particulares, não é uma religião especial, porque não tem nem seus sacerdotes e nem seus templos” (id. Ibid, p.190). Explica ainda: “Eis porque sem ser, em si mesmo, uma religião, ele (o Espiritismo) leva essencialmente às idéias religiosas, as desenvolve naqueles que não as têm e as fortifica naqueles em que elas são hesitantes” (id. Ibid, p.107).

Na Revista Espírita, Kardec (Discurso de 1/11/1868, Revista Espírita, Vol.11, apud: Rizzini, 1987, p.95) também diz: “No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos ufanamos disso, porque ele é a Doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as leis da Natureza.

Por que então declaramos que o Espiritismo não é uma religião? 

Por isso: só temos uma palavra para exprimir duas idéias diferentes e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da idéia de culto; revela exclusivamente uma idéia de forma e o Espiritismo não é isso”.

Conclui-se destas passagens que para Allan Kardec, o Espiritismo é uma doutrina científica e filosófica de conseqüências morais, e deixa o título de religião para os cultos dogmáticos, com hierarquia sacerdotal e templos instalados para a adoração, mas reconhece num sentido filosófico que o Espiritismo é religião, porque de uma certa forma a religião serve de laço que une as pessoas em uma “comunhão de sentimentos, princípios e crenças” (Herculano Pires, apud: Rizzini, 1987, p. 99).

Podemos citar também Carlos Imbassahy (apud: Rizzini, 1987, p. 100): “O espiritismo tem, pois, um lado religioso, visto que nele se ensina e prega o que pregam as outras religiões…”.

Ou citar também Carlos Toledo Rizzini (1987, p. 103): “O fundador do Espiritismo, Allan Kardec, evitou aplicar à dita doutrina o termo religião, notando que, no sentido usual, tal palavra não exprime a real natureza dela. Mostrou que há dois conceitos diferentes e uma única voz para designá-los. Achava, portanto, que o Espiritismo é religião somente em certo sentido. Considerando o sentimento religioso (ou necessidade) um estado íntimo individual, presente mesmo nos povos primitivos, parece mais consentâneo com sua índole declarar o Espiritismo uma religião interior”.

A religião interior, segundo Rizzini, refere-se à natureza íntima e pessoal do sentimento religioso, onde os atos exteriores de culto e adoração perdem a significação.

É neste sentido que se pode compreender a afirmação da FEB no II Congresso Espírita Internacional Panamericano:

“No Brasil a Doutrina Espírita, sem prejuízos nos seus aspectos científicos e filosóficos, é fundamentada no Evangelho de Cristo, certo de ser o Consolador Prometido de que nos falam aqueles mesmos Evangelhos. Por isso é que nós outros, que vivemos no Brasil ligados à doutrina espírita, consideramo-la a religião”.

Jorge Cordeiro

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